Matéria publicada no Jornal Hoje em Dia dia 10/12/2011 - pág. 12 Opinião
Dirigir é uma atividade sedentária. Na estrada por semanas a fio, com os tipos de dietas que fazem nutricionistas apopléticos, os motoristas profissionais do país estão em péssimo estado. Depois de um dia preso na cabine, parando apenas para devorar comida gordurosa, quem poderia pensar em fazer dieta e um programa de exercícios físicos?
É comum entre esses profissionais obesidade, hipertensão e apneia do sono. Um relatório de 2007 da Federal Motor Carrier Safety Administration, nos EUA, descobriu que 87% dos acidentes envolvendo caminhoneiros resultou em algum grau de erro de direção. Doze por cento destes casos foram porque o motorista estava dormindo, teve um ataque cardíaco, estava em choque diabético ou tinha algum outro problema de saúde.
As estimativas brasileiras mostram que tanto o ronco quanto a apneia do sono são frequentes entre trabalhadores de turno e motoristas profissionais. Eduardo Santos e colaboradores, em 2004, avaliaram sono diurno e noturno e a presença de sonolência em motoristas trabalhadores de turno de empresa de ônibus interestadual. Verificaram que distúrbio respiratório de sono foi um achado comum entre esses profissionais (38% de Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono - SAOS).
Em 2000, um estudo realizado em São Paulo pela UNIFESP, verificou que 16% dos motoristas trabalhadores de turno admitiram abertamente ter cochilado ao volante, entretanto quando esses condutores foram perguntados sobre se eles tinham conhecimento de cochilo ao volante entre os seus colegas, o número aumentou para 58%. Sedentarismo, alimentação inadequada, excessos de carga de trabalho e distúrbio respiratório do sono são algumas das causas apontadas pelos estudos como fatores agravantes desse estado.
Essas condições não acontecem apenas entre motoristas profissionais. Trabalhadores de outras categorias também estão em risco de acidentes causados pela apneia do sono. Em 2000, na Suécia, pesquisadores relataram que a identificação e o tratamento de ronco e SAOS em trabalhadores poderia, potencialmente, reduzir o número de injúrias ocupacionais, além de melhorar a saúde e o bem estar desses profissionais. No Canadá outro estudo realizado por Mulgrew em 2007 constatou que o desempenho no trabalho torna-se prejudicado pela sonolência diurna nos pacientes com SAOS. Além disso, recomendaram que a detecção de desordem respiratória no ambiente de trabalho ajudaria a diminuir o absenteísmo e melhoraria a produtividade.
Embora a preocupação com a saúde dos trabalhadores seja certamente importante na busca por iniciativas de bem-estar, a economia também desempenha um papel. As indústrias de qualquer natureza estão às voltas com taxas altíssimas de seguro e aumento de custos médicos, além de queda na produtividade e prejuízos por máquinas paradas e desempenho prejudicado.
Muitas indústrias de variados seguimentos já possuem programas de Medicina do Sono com equipes multidisciplinares compostas por médicos de sono e de outras especialidades, nutricionistas, dentistas e fisioterapeutas. E já colhem os frutos desse trabalho conjunto, com diminuição dos acidentes e incidentes, a melhoria da saúde e qualidade de vida e, claro, repercussões financeiras positivas.
A Odontologia tem tido importante papel nos programas de Medicina do Sono dessas empresas. Há menos de 50 anos, a Odontologia tinha como meta a extração. Depois investiu em procedimentos curativos e, posteriormente preocupou-se com a prevenção. No século XXI, saúde bucal não se restringe apenas a concepção de dentes preservados, mas, sim, qualidade de vida. Nesse contexto surgem diversas especialidades ou áreas de atuação, como por exemplo, Odontogeriatria, Implantodontia, Laserterapia, Odontologia do Trabalho e Odontologia do Sono.
Tratando dos roncadores e apneicos com os aparelhos intraorais, dentistas especializados na área do sono tem demonstrado cada vez mais as evidências dessa terapia que é simples, cômoda e acessível para as pessoas. Como reconhecimento desse trabalho, no último Congresso Brasileiro de Sono, ocorrido em novembro de 2011, em BH, a Associação Brasileira de Sono certificou 30 dentistas de todo o país, que prestaram prova teórica e prática para a obtenção dessa declaração formal de credibilidade.
São os dentistas ajudando o Brasil a dormir melhor. Quem imaginaria isso há 50 anos atrás?
Maria de Lourdes Rabelo Guimarães – Coordenadora de Pós em Odontologia do Sono pela Faculdade Ciodonto/Estação Ensino. É Dentista do Sono e do Trabalho